sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Gary Young inova com bambu




Gary Young no Hawaii com sua invenção, a Bamboo Surfboards. Foto: Divulgação.
Foi em meados dos anos 70, sentado em um posto de gasolina, que o jovem shaper californiano Gary Young teve a ideia de buscar novas alternativas para a fabricação de pranchas, que utilizassem recursos renováveis.

Gary queria algo que não dependesse de derivados do petróleo, pois
na época o mundo vivia uma crise de abastecimento com o embargo da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

Com a idéia na cabeça, Gary desenvolveu a sua arte em pranchas fabricadas com compostos de madeira, utilizadas por grandes nomes do surf na época, como o sul-africano Shaun Tomson.

Mas, por acaso, muitos anos depois, que ele teria o seu primeiro contato com fibras de bambu, um encontro que marcaria para sempre a sua vida pessoal e profissional.

Young passou por altos e baixos fabricando pranchas de surf e pranchas a vela (sua segunda paixão) com a marca Woodwinds, quando descobriu nas propriedades do bambu o casamento perfeito entre qualidades técnicas e recursos naturais recicláveis.

A lista de vantagens técnicas e ecológicas do uso do bambu é imensa. A planta é muito resistente e flexível, suas 1.200 diferentes espécies levam em média apenas três anos para ser reaproveitadas e, quando cortadas, crescem cada vez mais fortes, em uma média de duas polegadas por hora. Além disso, as florestas de bambu não necessitam de replantio, pois se recuperam naturalmente e crescem até em solos de áreas degradadas.

Radicado desde o final dos anos 80 em um retiro na Big Island, Hawaii, Gary também utiliza uma inovadora técnica de "embalagem a vácuo" para moldar pranchas de surf, stand up, snowboards e canoas.

Uma má parceria com empresários australianos rendeu uma batalha jurídica pelos direitos sobre sua invenção, mas Gary segue firme com a sua marca Bamboo Surfboards na missão de desenvolver suas criações ecológicas e se diferenciar dos muitos imitadores que utilizam fibras de bambu processadas com colas altamente tóxicas e, portanto, nada ecológicas.

Em entrevista ao blog Surf e Cult, ele revela um pouco de sua visão e do trabalho de mais de 30 anos com compostos de fibras naturais, um trabalho reconhecido com o prêmio Green Wave Award 2008, da revista Surfer's Path.

Como está a sua produção das pranchas de bambu nos dias de hoje?

Minha principal mensagem a respeito das pranchas de bambu é que desenvolvi, e procuro sempre aprimorar,  um sistema para fabricar pranchas que é completamente mal-entendido pelo setor produtivo do surf.

O material publicado em meu website é apenas uma pequena amostra do estágio que havia alcançado no sistema de produção de pranchas há cerca de um ano e meio. Mas, como infelizmente muitas pessoas vêm tentando utilizar o bambu de maneira imprópria, eu tenho que ser muito cauteloso sobre o que publicar a este respeito.

Qual a sua relação com as tecnologias alternativas na fabricação de pranchas? Como você posiciona o futuro das pranchas de bambu dentro do contexto de performance, preço e método de produção?

Minhas pranchas de bambu não utilizam matéria-prima ?tradicional?, nem estão inseridas num sistema ?tradicional? de produção. As pessoas que surfam com pranchas de bambu, ou entendem o que estou fazendo, concordam que os modelos que produzo são leves, fortes, tem boa performance e são verdadeiramente sustentáveis. Elas são ainda mais rentáveis que as pranchas ?normais? dentro de um sistema de produção.

Como você enxerga o desenvolvimento da indústria do surf na próxima década? Quais as mudanças necessárias para termos um cenário mais sustentável?

No Hawaii e na Califórnia, se você não está ?na moda?, você não tem representatividade. Você também precisa de promoção e publicidade pesada, o que custa muito dinheiro, ou então ser um surfista de competição fora de série. Eu não me insiro em nenhuma dessas alternativas e com 60 anos já estou cansado dos jogos e negócios da indústria do surf.

As pranchas de bambu certamente atraem um público crescente que se interessa pelas questões ambientais e os modelos clássicos de pranchas. Você acha isso apenas uma moda passageira ou uma verdadeira mudança na mentalidade dos surfistas?

Minha paixão é criar novas e melhores maneiras de fazer produtos com fibras naturais laminadas e o bambu é uma das melhores. Uma parte importante da minha mensagem é que as pranchas de bambu são apenas a ponta do iceberg.

Centenas de produtos podem ser fabricados de maneira superior utilizando bambu e é nessa direção que quero caminhar. Quero explorar e desenvolver os produtos verdadeiramente ?verdes? (ecológicos) que não são apenas um slogan de marketing, mas sim, representem (com qualidade) aquilo a que se destinam.

Você já apresentou os seus modelos em bambu para o público brasileiro?

Estou esperando encontrar as pessoas certas com quem trabalhar, incluindo investidores financeiros para produzir as pranchas de bambu. Certamente estou aberto a fazer isto em outros lugares, como no Brasil, por exemplo.

Clique aqui para conhecer mais sobre o trabalho de Gary Young.